Ali estava eu, capaz de esquecer o extracto do talão bancário. Borrifar-me para as convenções. Não queria saber de dogmas e de todo um mundo chato preso no "tem de ser" dos dias cinzentos. Estava capaz de não ir trabalhar, de me dar a travadinha e simplesmente pegar no carro. Ir até chegar ao único destino onde me via regressar, sem como, nem porquê, uma e outra vez, com todas as desculpas na mão que me saíam atabalhoadamente pela boca - menos a verdadeira:
tinha de te ver.
Sentada no café, sem sair do sítio entregava-me à espuma na borda da caneca com um qualquer
cappuccino a fixar o olhar nos pontinhos castanhos de canela que simplesmente se acoplavam ali. Tentava fixar o olhar em algo que me fizesse esquecer a magia que fazias acontecer. Soprava para longe as faíscas que me transbordavam do olhar. Talvez porque esquecendo a maneira como os teus olhos riam quando prendidos nos meus, eu pudesse ficar mais perto de aceitar a racionalidade de não te ter.
Moía-me devagar, como quem carinhosamente desfazia os grãos de café que me passavam naquele momento pelos lábios. Os mesmos dos quais te roubei o inspirar. Os mesmos que não sabiam esquecer o sabor dos teus. Guardei(te) religiosamente, como quem cultiva um segredo e mantive-te sereno em mim, contentada com os imponderáveis da não pertença.
Convencida que o som que me saía da boca quando proferia o teu nome não me era música.
Mas como o refrão da melodia predilecta, soube logo:
Caíste-me no goto. Fixaste-me. Prendeste-me.
E eu nada fiz para me soltar.
De soslaio olhei para a chave do carro.
Só precisava de 100 minutos.
100 minutos à troca de 5 - pensava eu -
nem que fossem 5 - os suficientes para pousar a vista em ti.
Para sossegar o coração. Para ter a certeza.
Vou, não vou?
No meio de uma desculpa esfarrapada, bastante pouco convincente, em que a minha voz dava de si, num sumiço por preferir mentir a admitir que simplesmente não me saías da cabeça, em menos de nada tinha-te à minha frente.
Toda eu corava e, sem jeito, mal sabia como te dizer com os olhos o quão feliz estava em te ver.
Por não pertencer a lado nenhum, apetecia-me dizer-te que te queria pertencer. Que me eras mais que o que sabia mostrar. Que estava cansada de aparentar uma indiferença que me era muito pouco característica.
Mais uma vez o tempo voou. Mais uma vez te senti a escorregar-me das mãos, quando nem coragem tinha de tas tocar. Mais uma vez olhei para trás, apenas para te ver a afastar. Pela primeira vez estava parada e do olhar transbordou-me sal, transbordou tudo o que tinha entalado e não fui capaz de proferir. Transbordou-me a falta de coragem para dizer:
Fica comigo que eu nada faço para me soltar.